Hormônios

Segurança cardiovascular da terapia com testosterona após o TRAVERSE: posicionamento europeu

Painel europeu coordenado por Zitzmann e Corona consolida orientações para a prática após o maior ensaio randomizado já feito sobre o tema.

Por Equipe Código Saúde, Redação médica baseada em evidência · 2 min de leitura

A terapia com testosterona já é uma pedra angular no manejo do hipogonadismo, com benefícios documentados em função sexual, humor, massa muscular e densidade óssea. Em maio de 2025, o European Expert Panel for Testosterone Research publicou no Andrology um position statement que sintetiza as conclusões cardiovasculares mais relevantes da literatura recente — em especial do ensaio TRAVERSE.

O contexto

Por mais de uma década, advertências regulatórias da FDA e da EMA recomendaram cautela ao prescrever testosterona em homens com risco cardiovascular elevado, com base em estudos observacionais e em metanálises de qualidade limitada. O TRAVERSE — randomizado, duplo-cego, com 5.246 homens entre 45 e 80 anos, hipogonádicos, com doença cardiovascular pré-existente ou risco elevado — foi desenhado especificamente para responder à pergunta: repor testosterona aumenta MACE?

O que o painel europeu sustenta

  • Não-inferioridade demonstrada: o desfecho composto (morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC não fatal) não foi mais frequente no grupo testosterona vs. placebo ao longo de cerca de 33 meses.
  • Sinais secundários a observar: leve aumento de fibrilação atrial, embolia pulmonar e lesão renal aguda — discretos, mas suficientes para entrar na conversa de risco-benefício.
  • Triagem cardiovascular pré-tratamento permanece mandatória: hipertensão controlada, perfil lipídico, hemograma com hematócrito, PSA, avaliação clínica de ICC.
  • Fenótipos de maior cuidado: homens com fibrilação atrial prévia, com doença tromboembólica venosa, ou com hematócrito basal próximo de 50%.
  • Decisão compartilhada: o paciente sintomático e bem informado é o melhor juiz da relação benefício–risco em conjunto com seu médico.

Como traduzir isso para o consultório

  1. Confirme o diagnóstico (duas dosagens matinais + sintomas compatíveis).
  2. Estratifique o risco cardiovascular — escore de Framingham ou semelhante.
  3. Documente expectativas e metas terapêuticas; revisite-as a cada 3-6 meses.
  4. Monitore hematócrito, PSA, lipidograma; ajuste dose se hematócrito > 54%.
  5. Não trate quem não tem sintomas, mesmo com nível baixo isolado.
Referência

Zitzmann M, Rastrelli G, Murray RD, Edwards D, Reisman Y, Mohan Rao P, Sahi A, Jones TH, Ferlin A, Armeni E, Corpas E, Cremers JF, David J, Arver S, Antonio L, Corona G. Cardiovascular safety of testosterone therapy—Insights from the TRAVERSE trial and beyond: A position statement of the European Expert Panel for Testosterone Research. Andrology. 2025 May 15;14(1):294. PMID: 40372318.
DOI: 10.1111/andr.70062 — artigo open access.

Resumo editorial em português elaborado por Código Saúde. As condutas finais devem seguir o documento original e as diretrizes nacionais aplicáveis.

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